BLOG MONTELONGO
Olhares para Fafe
18
Nov 17

Opinião de Manuel Pimenta publicada no "O Minho":

 

Esta é a minha quarta incursão para escrever sobre terras do Minho.
Não sei bem porque me lembrei de vir a Fafe… Talvez pelas fortes memórias que a cidade me deu cada vez que foi ter comigo. A claque que levavam aos jogos da bola; o ribombar dos seus bombos nas ‘minhas’ romarias; essa tal coisa da ‘Justiça de Fafe’;… e a forma como os fafenses que conheci levantavam as sobrancelhas ao dizer ‘Com Fafe ninguém fanfe!’
A viagem tinha tudo para dar certo.

Logo ao chegar, a primeira coisa que fiz foi perder-me. A segunda também. Mais outras tantas, que até já lhes perdi a conta. A pé ou de carro, aquilo que mais tenho feito aqui é andar à nora. Cada vez que me dirijo a algum lugar acabo por dar duas voltas ao bilhar grande. Fafe parece ter sido organizada pelos tipos do IKEA, só que aqui nem colocaram setinhas no chão.
Mas que ninguém pense que isso é mau. Quantas mais vezes me perco numa terra mais depressa a sinto como casa. O meu lado inconsciente deve fazer de propósito.

De tanto me desnortear acabei por conhecer uma cidade bem fixe.
Confesso que não estava à espera de ver tão bonitas casas e palácios. O Teatro também é lindo de morrer… pena o terem confinado a uma rua tão estreita.

Palácio Fafe Arquivo

Atrás do tribunal, lá estava a estátua que simboliza a identidade desta terra. É provável que aquele homem que se prepara para levar uma paulada tenha ‘fanfado’ com os fafenses. Como ainda não sei bem o que é ‘fanfar’ tenho procurado andar sossegadinho. Há pouco andava a tirar fotos esquisitas e levei com um olhar que interpretei como um cartão amarelo. Aquilo devia estar nos limites da ‘fanfice’ e se há coisa que não me apetece é levar com um pau no lombo.

Tem piada escrever isto nesta praça. Ao meu lado direito há uma espécie de varanda que se debruça sobre o largo. É nesse ‘primeiro andar’ que se abancam os mais velhos. Alguns estão munidos de paus e de bengalas, o que mistifica ainda mais a coisa. Parecem guardiões dessa tal identidade aqui da terra… preparados para vir cá abaixo malhar se alguém se lembrar de ‘fanfar’.

Gosto de imaginar que isso vai condicionando o que escrevo, mas a verdade é que não tenho ganho motivos para ‘fanfar’ com o que quer que seja. Tem estado um belo dia de setembro e só tenho batido de frente com gente simpática. No punhado de conversas que entabulei, todos foram afáveis, bem dispostos e afirmativos, além de tudo me ser servido com um sotaque bem castiço e singular:

– Siga ó pra baixo!
– Num bá por aí!
– Tenha calma que eles esperam!
– Dê cá o dinheiro que eu tiro-lhe o tabaco!
– Mas olhe que a melhor bitela num é aí que se come!
– Faça ali uma renúncia e siga em sentido contrário!

Andar perdido teve essa vantagem. Ainda bem que o gps não percebia nada de Fafe e me pôs a falar com tantos fafenses. E que gente tão desenrascada e porreira tenho encontrado.

Bem sei que estes retratos que faço terão sempre um cariz superficial.
Um dia é tempo escasso para poder avaliar qualquer lugar. Mas também sei que de tanto viajar já me sinto um pouco ‘enólogo de gentes’. E não é preciso beber uma garrafa inteira para se saber se um vinho é bom.

fanfar Fafe Pimenta

 



publicado por blogmontelongo às 18:00
17
Mai 17

Excertos da entrevista a António Novais, Presidente da Junta da União de Freguesias de Aboim, Felgueiras, Gontim e Pedraído, pelo jornal Expresso de Fafe:

 

Expresso de Fafe: É presidente da união de freguesias do concelho que mais freguesias agregou. Como é que as pessoas reagiram a esta união?

António Novais: Foram quatro freguesias, ao princípio foi um bocadinho complicado, mas correu bem e aos poucos as pessoas estão a integrar-se. Acho que as mentes se vão modificando e brevemente as pessoas olharão para aquela imensidão de terreno, a maior área do concelho, como um todo. São mais de trinta quilómetros quadrados, que começam em Estorãos e fazem

limite com Vieira do Minho e Cabeceiras de Basto.

 

EF: Como é que se gere quatro freguesias como uma só?

AN: Em assembleia foi decidido que a sede seria em Pedraído, o que não implica rigorosamente nada para as pessoas, porque, se havia quatro sedes de Junta anteriormente, ainda abrimos um quinto posto de atendimento na Lagoa. Temos uma funcionária que vai a cada um deles uma vez por semana e assim encurtam-se distâncias.

 

EF: Que trabalho tem sido feito neste mandato?

AN:Temos apostado em algumas pavimentações, em caminhos que estavam degradados, e no apoio social aos idosos, quer com atividade física, na antiga escola de Pedraído, duas vezes por semana, quer com um enfermeiro, de 15 em 15 dias nos tais cinco postos de atendimento e serviço ao domicílio. Queremos proporcionar informática às pessoas, mas por uma questão estratégica ainda não colocamos os computadores, porque estamos a prever fazer obras na escola, para ser alargada a centro de convívio.

 

EF: Faz falta um centro de convívio?

AN:Muito. Um centro de convívio que proporcione atividades que deem qualidade de vida, mas para as pessoas estarem duas a três horas e voltarem para casa, porque tenho-me apercebido que é isso que querem e não um centro de convívio que funcione o dia inteiro.

 

EF: Têm muitas necessidades sociais identificadas?

AN:Temos pontualmente socorrido o que nos tem chegado a nível de apoio domiciliário, sobretudo de refeições, mas há a necessidade urgente de um centro de dia. Estamos a falar de uma população bastante envelhecida. Ao fim-de-semana os jovens regressam, mas durante a semana é difícil ver juventude na terra. Se reparar, não existe no norte do concelho, de Medelo para cima, e estamos a falar de uma área com entre 5 a 6 mil pessoas, que ficou completamente ao abandono. Nestes últimos anos não tem havido incentivos, nem apoios nesse sentido.

 

EF: Têm mais alguma obra planeada ainda para este mandato?

AN: Estamos a planear obras na antiga sede da Junta de Aboim, porque temos necessidade urgente desse espaço polivalente. Penso que até ao final do mandato estará pronta. Pretendíamos ainda alargar o cemitério da Lagoa, que é um caso grave, porque está sem espaço, mas ainda não conseguimos negociar os terrenos na totalidade, estamos em fase de expropriação. São questões burocráticas que estão a impedir.

 

EF: Com o aproximar do verão, os incêndios são uma preocupação?

AN:Já estão a ser. A parte desde Pedraído a Lagoa está a arder constantemente. Não temos como prevenir, a não ser alertar e sensibilizar as pessoas. Para nós é uma preocupação, até porque temos uma das maiores manchas contínuas de carvalho-cerquinho da Europa, que é uma das coisas que leva mais visitantes a Aboim e que temos conseguido preservar, graças à prontidão dos Bombeiros Voluntários de Fafe. É uma das coisas mais bonitas e ricas da freguesia e que está subaproveitada. Podia ser uma mais valia, não só para a freguesia, mas para o concelho.

 

EF: Têm apostado em alguns pontos de atração turística.

AN:Sim, principalmente em Aboim, que eu costumo dizer que é o local mais visitado de Fafe. E é, sem dúvida. Pela beleza natural, pelos percursos pedestres, pelo moinho, ex-líbris recuperado em 2008, e pelo Museu de Aboim e do Povo de Aboim e Centro Interpretativo da Montanha e do Centeio de Aboim, que criámos na escola primária, em 2011. Com isso fizemos com que

a escola que estava fechada voltasse a receber meninos, mas também visita de séniores e até muita gente estrangeira. O ano passado tivemos o prazer de receber a TIMS (Sociedade Internacional de Molinologia), que nos privilegiou pondo o nosso moinho na capa de uma revista publicada em todo o mundo, desde a Nova Zelândia ao Canadá. É um orgulho para nós.

 

EF: Ainda há potencialidades por explorar?

AN: O norte do concelho é o futuro do turismo em Fafe. Infelizmente não tem havido boa vontade política, nem de particulares que queiram apostar lá. Se reparar, o norte é que tem o Rali e a Volta a Portugal, agora com a famosa etapa do Salto da Pedra Sentada, as melhores paisagens, o carvalhal e um moinho único no mundo, com um valor incalculável. Não inventamos nada. Aproveitarmos o que a natureza nos ofereceu é a grande potencialidade. Espero que no futuro Fafe saiba aproveitar isso, porque se quer turismo não é só promover a vitela assada. Embora seja importante, à que criar outras alternativas.

 

EF: O que falta para alcançar uma maior projeção turística?

AN: Eu lamento que, ao longo destes anos todos, tenhamos tido tantos programas de televisão feitos aqui, em Fafe, e a única vez que se falou do moinho de Aboim foi no “Portugal no Coração”, através do senhor Jorge Miranda, da Rede Portuguesa de Moinhos. Nunca tivemos a oportunidade de dizer o que Aboim tinha e fazia em mais nenhum minuto durante estes 20 anos em que a televisão vem a Fafe.

 

EF: A atenção que o Município deu à freguesia não correspondeu às expectativas?

AN: Confesso que esperava mais. Se for ver os discursos do presidente da Câmara, no início do mandato, dizia que a aposta era no norte, mas até agora a aposta é nenhuma. Mas quanto a freguesias, a nível geral, mérito lhe seja dado por ter tido a ideia fenomenal das transferências para as Juntas, esteve muito bem nesse aspeto. Noutras áreas acho que podia ter feito mais pelo norte do concelho.

 

EF: Pensa numa recandidatura?

AN: A minha opinião é que o meu tempo já passou, já contribuí com o meu dever cívico, mas não fecho a porta na totalidade, deixo-a só um bocadinho aberta. Acho que dentro da equipa há pessoas que podem continuar este trabalho.

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publicado por blogmontelongo às 18:00
16
Mar 16

Opinião de Carlos Rui Abreu, director-adjunto do jornal Notícias de Fafe:

 

Sábado, cinco de Março de 2016. Cerca das 16 horas fui à Praça 25 de Abril para assistir à chegada dos corredores da categoria de cadetes que participavam no Prémio Cidade de Fafe em ciclismo. De máquina fotográfica em punho, com a 'camisola' deste semanário vestida, fui interpelado por uma senhora muito simpática mas cuja pronúncia nos remetia para outras latitudes. "Boa tarde. É jornalista?", atirou ela. "Sim, do jornal Notícias de Fafe, o único semanário cá da terra", respondi eu. "Sabe, têm aqui uma cidade muito bonita. Fiz quase 400 quilómetros para ver os nossos miúdos no ciclismo e, como nunca tinha vindo a Fafe, aproveitei para conhecer melhor". Fiquei a perceber que a senhora era da região da Grande Lisboa e que tinha vindo ver o folho participar na corrida de ciclismo.

Premio Cidade Fafe Ciclismo

 "E então, está a gostar?", perguntei. "A cidade é bonita, parece bastante organizada aqui no centro, um largo amplo e airoso, onde deu prazer passear. Almoçamos muito bem mas depois do almoço ficamos desiludidos". Será que tinham sido mal servidos no restaurante, a comida não estava em condições. Não, a desilusão desta visitante não passava por aí. "Fomos ali a um sítio que nos indicaram como Casa da Cultura, que tinha um Museu da Imprensa e da Emigração, mas estava fechado. Como também conhecíamos a fama de Fafe como terra da justiça fomos ver a tal estátua de que já me tinham falado, mas olhe que ela está muito escondida e para ser o vosso símbolo está muito mal aproveitada. Ainda continuamos a passear pelo centro mas as lojas estavam todas fechadas e só se viam cafés e pastelarias abertos. É sempre assim, tudo tão parado e sem gente?" Por momentos ainda hesitei na resposta. Dizia a verdade e afugentava uma possível futura turista na cidade ou tentava arranjar uma desculpa. Em defesa de Fafe optei pela segunda: "Não. Nem sempre é assim. Hoje realiza-se aqui um rali importante e as pessoas foram mais para a zona da serra e a cidade parece meia abandonada." Perspicaz, a minha interlocutora de imediato retorquiu: "Um rali hoje!? Ao mesmo tempo que o ciclismo!? Então é por isso que não está aqui quase ninguém a ver a prova, deveriam fazer as coisas em datas diferentes para não estragarem as organizações uns dos outros".

Pois, esta visitante de ocasião tem razão. Organizam-se eventos, alguns deles sobrepostos, atraem-se pessoas a Fafe mas depois não se consegue oferecer mais do que um almoço e, pela tarde uma meia de leite e um croissant.

É essencial que as pessoas que visitam Fafe levem outra imagem. Não fechem a cidade ao fim-de-semana.



publicado por blogmontelongo às 18:00
12
Mar 16

Opinião de Ricardo Sobral no seu blog Bicicleta na Cidade:

 

Este artigo faz parte de um conjunto de textos sobre as Ecopistas de Portugal – projecto para o desenvolvimento de caminhos para bicicletas e peões através do aproveitamento de linhas ferroviárias desactivadas – servindo como base para uma análise mais aprofundada do potencial destas infraestruturas. Discute-se o seu uso do ponto de vista da bicicleta e não ferroviário.

 

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Casas, campos agrícolas e um acesso privilegiado


Chegando à estação de comboios de Guimarães, esperava encontrar algum vestígio da linha que até 1986 dali partia em direcção a Fafe. A estação fora entretanto substituída por uma nova, construída mais à frente, terminando agora numa parede de betão atrás da qual um parque de estacionamento automóvel e uma rotunda separam a moderna infra-estrutura de um terreno verde de erva pujante, onde só a ausência de edifícios deixa imaginar que por ali, em tempos, terá passado um comboio.

 

A Ecopista de Guimarães faz parte do Plano Nacional de Ecopistas criado em 2001 pela então REFER Património, gestora da rede ferroviária, agora denominada IP Património. O plano foi criado “tendo em vista a requalificação e reutilização das linhas e canais ferroviários sem exploração”, pode ler-se no site da empresa, onde o trajecto entre Guimarães e Fafe é anunciado como parcialmente concluído – de um total de 21 quilómetros, pouco mais de 14 estão finalizados.

 

Entrada pelas traseiras

 

No posto de turismo da cidade que foi a primeira capital do país explica-se como chegar ao local onde a via começa. Os mapas disponíveis para oferecer aos visitantes estão circunscritos a uma zona mais central da cidade e o guia precisou de recorrer a um exercício de imaginação para me ilustrar o que faltava do caminho. Perguntei o que tinha acontecido à parte da linha que saía da estação e atravessava a cidade antes de começar a subida à Penha. “Já não existe”, foi a resposta dada num tom simpático, como é tudo aqui.

 

A Penha é o nome do monte que os primeiros quatro quilómetros de linha serpenteavam para alcançar o seu topo, cerca de 150 metros acima da estação, deixando para trás a cidade e, ao mesmo tempo, proporcionando uma vista panorâmica sobre ela. Um artigo publicado na revista Ilustração Portugueza aquando da inauguração da linha em 1907, dá conta do que se podia observar à época:

 

Sae esta nova linha da estação de Guimarães agarrando-se ao magestoso monte da Penha, encimado com a estatua de Pio IX e um pittoresco hotel, e, durante quatro kilometros, sempre subindo, vae-nos mostrando soberbos panoramas que se estendem desde a cidade de Guimarães até às alturas do Sameiro. Rodeado um contraforte do monte da Penha, entra-se então no extensissimo valle de S. Torquato.

 

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Vista para o Vale de São Torcato

Hoje, este troço do percurso faz-se por uma alternativa menos sonante, a antiga Estrada Nacional 101, que foi transformada nas ruas Padre António Caldas e da Cruz da Argola depois de construída a sua variante. Tem a vantagem de encurtar a distância e os senões de ser mais íngreme e de ter trânsito motorizado pouco afeito à partilha com ciclistas. A vista até pode ser boa mas a falta de sinalização que indique o início da ecopista e o movimento rodoviário constante convidam pouco à contemplação. A primeira indicação da “pista de cicloturismo” aparece somente para assinalar a saída desta estrada, voltando a surgir a partir daqui sempre que é necessário mudar de direcção. Quando em recta, mesmo passando por rotundas e outras junções, não há qualquer placa indicativa, o que só aumenta a ansiedade do ciclista durante a subida... ter-me-ei enganado no caminho?

 

É nas traseiras de uma fábrica do sector têxtil que se entra na ecopista, assinalada com um pórtico metálico de dimensão um tanto ou quanto exagerada, como que tentando devolver o prestígio a algo importante, sem dúvida, que porém se esconde nas traseiras de uma fábrica. Rapidamente se esquece tudo isto quando se olha para o vale que preenche a paisagem à esquerda.

 

Chamar-lhe “pista” adequa-se, mas não devia

 

A construção desta linha de comboio tornou-se viável financeiramente após uma revisão do traçado que permitiu eliminar dois túneis inicialmente previstos. O plano nunca concretizado era, a partir de Fafe, fazer a ligação com as linhas do Tâmega e do Corgo, aproximando o Minho e Trás-os-Montes, até à cidade de Chaves.

 

Após o encerramento do serviço ferroviário, a Câmara Municipal de Fafe foi a primeira a converter o canal em pista de cicloturismo, como lhe chamam na placa que assinala a sua inauguração em 1996. Seguiu-se-lhe o município de Guimarães, três anos depois, que a completou até ao local onde ainda hoje principia.

 

Em bom estado de conservação está o asfalto, que é acompanhado por uma linha branca que percorre todo o trajecto, um traço continuo que dificilmente cumpre a função de proibir a transposição da via de circulação porque, numa faixa com estas características, tal regra é desnecessária e até contraditória desde logo porque é partilhada por ciclistas e peões, recomendando ultrapassagens com alguma distância lateral. Uma despesa em tinta que poderia ser poupada sem que a segurança dos utilizadores fosse afectada.

 

Nalguns troços vemos rails de protecção lateral iguais aos das autoestradas, estes sim uma ameaça à segurança dos ciclistas. O que é bom para os automobilistas, como estes são, pode transmitir uma falsa sensação de segurança a quem tem o corpo exposto em caso de embate ou queda e estes rails, que deveriam ser almofadas, são antes facas sem gume.

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Rail de protecção lateral e pórtico

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Cruzamento com uma estrada

 

Um trabalho realizado pela Universidade do Minho em 2001 aponta todos estes pormenores, colocando a tónica na segurança dos ciclistas e na sua fruição do percurso – aspectos que se interligam, obtendo-se um por via do outro. No artigo são referidas medidas que permitiriam transformar este canal num verdadeiro corredor verde, o que, apesar de algumas melhorias, ainda está por concretizar. Percebe-se que a escolha das protecções laterais teve como principal preocupação impedir o acesso de veículos motorizados à ecopista mas, conspicuamente, todos os equipamentos obedecem a uma linguagem rodoviária e não de ciclovia, como também é notado nesta passagem:

 

Estes elementos estruturantes (...) não devem reflectir o aspecto, dimensões, ou tipo de material usados standardizadamente nas estradas. Deve-se implementar uma imagem própria à ciclovia (...). A título de exemplo, as velocidades inerentes a velocípedes justificam sinais de menores dimensões, que não têm que ser de tão rápida percepção como a sinalização de estrada.


Tudo isto se torna pouco importante quando se olha em volta a vista imensa. É, todavia, justamente esse o motivo que deve orientar a escolha de soluções, permitindo uma distracção segura e desejável em vez de iludir na segurança ou fantasiar com estradas como as dos automóveis, como se as vias para bicicletas fossem uma brincadeira infanto-juvenil. Nunca foram.

 

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Estação de Paçô Vieira, concelho de Guimarães
 

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Estação de Cepães, com esplanada, concelho de Fafe

 

O que pode ser melhorado

A remeter para algum outro imaginário que não o de uma via para ciclistas e peões, a ecopista deverá valorizar o património ferroviário e relembrar ao viajante a história deste canal e o porquê dele existir. Dificilmente se cortariam montanhas e fariam taludes, túneis e pontes como aqui se fosse para criar de raiz um corredor verde. Esta via e o seu suave declive existem porque em tempos passaram por aqui comboios fumegantes.

 

 

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Ciclovia do Parque da Cidade, Fafe

Contudo, para dar maior coerência a esta via, é necessário prolongá-la em ambos os sentidos. Se em Fafe a ecopista já tem continuação através de uma ciclovia que convida a entrar na cidade, penetrando no parque verde até chegar a uma praça central, poderia daí continuar cumprindo o projecto original de ligar a Chaves e aproximar o Minho e Trás-os-Montes.

 

Do lado de Guimarães, duas opções estratégicas: prolongar a pista até à estação de comboios pelo troço original e, enquanto isso não é feito, melhorar a sinalização a partir do centro da cidade. Vamos por partes.

 

A primeira impressão com que se fica, olhando para o edificado, é que o canal ferroviário foi ocupado pela expansão urbana, o que também é sugerido pela demolição de um antigo apeadeiro nesta zona. Felizmente, olhando atentamente para a vista de satélite e confrontando-a com um antigo mapa, percebe-se que o corredor permanece livre, nuns casos abandonado às ervas, noutros transformado em arruamentos, como é o caso da Avenida Rio de Janeiro. A engenharia do início do século XX tem tudo para poder voltar ao serviço, proporcionando agora uma suave subida aos ciclistas.

 

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O troço entre a estação e o início da Ecopista em Guimarães, a tracejado

 

De acordo com as normas de sinalização vertical, uma placa cor-de-laranja, como a que indica a pista de cicloturismo, refere-se a equipamentos desportivos e estes, normalmente, existem num lugar concreto, como um hipódromo, um autódromo ou um ringue de patinagem. Contrariamente a esses equipamentos, esta pista de cicloturismo une duas cidades por meio de uma via sem tráfego motorizado e isso deveria estar inscrito na sinalética, com outra cor de fundo e, sobretudo, contendo a informação da localidade para onde segue e a respectiva distância, fundamental para quem se desloca de bicicleta.

 

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Uma humilde sugestão gráfica do que pode estar inserido na sinalética

Enquanto esta pista for tratada como um equipamento desportivo e não como uma via de circulação, ficará por explorar o potencial turístico e patrimonial que a Ecopista Guimarães – Fafe em si contém. Ligá-la à estação de comboios trará mais visitantes, desde que devidamente anunciada e sinalizada, na estrada e nos mapas. Continuá-la de Fafe até Chaves, através de um corredor verde, deve ser visto como um investimento estratégico e o corolário de uma ideia com mais de 100 anos.



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