BLOG MONTELONGO
Olhares para Fafe
29
Jul 15

Opinião de Alexandre Leite, eleito da CDU na Assembleia Municipal, publicada no jornal Notícias de Fafe:

 

Enquanto uns veem rios poluídos, outros olham para rios de dinheiro que poupam.  A tinta que vai no rio sem tratamento é dinheiro que fica do lado do dono da empresa poluidora. O que para o ecossistema local é poluição para o proprietário da tinturaria é uma despesa a menos.

Mas, bem vistas as coisas, a poluição dos rios tem vários custos. O custo ecológico, com a redução da biodiversidade; o custo da diminuição da atração turística; o custo do tratamento da água, que acabará por ter de ser feito; custos na saúde pública; custos na agricultura… Estes custos não aparecem no orçamento da empresa poluidora. Aparecem, por exemplo, no orçamento do empreendimento turístico que teve menos reservas, porque o rio ganhou fama de cheirar mal; aparecem no orçamento daquela pessoa que teve problemas de pele por tomar banho no rio, e aparecem no orçamento do agricultor que viu a sua colheita deteriorada por água contaminada. Se uma tinturaria descarrega as suas águas sujas diretamente no rio, sem passar por nenhum tratamento, ela conseguirá uma margem de lucro maior. Não entra nas despesas do seu orçamento o custo com uma estação própria de tratamento de águas ou outro mecanismo de purificação da água.

Pedirmos à empresa o favor de tratar a água é como pedir à raposa o favor de não comer as galinhas. É que estas descargas poluentes não são acidentais, fazem parte do modelo de negócio, é assim que conseguem melhores margens… de lucro. Tanto assim é, que esta situação não é de agora. Vivi a minha infância na zona da Cisterna, perto da entretanto encerrada Marigam. E lembro-me bem do cheiro e da cor da água do Vizela naquela zona onde agora é a pista de cicloturismo, antes de chegar a Cepães. O esquema está assim montado. E as autoridades locais e nacionais têm de escolher de que lado ficam. Têm de decidir se querem fiscalizar estas situações, ou se preferem assobiar para o ar e nada fazer de concreto. Têm de decidir se apresentam a conta ao poluidor ou se deixam ir a despesa na corrente.

A linguagem que os proprietários destas empresas melhor entendem é a linguagem do dinheiro. Quando eles começarem a ser multados e deixar de lhes compensar atirar a água suja para o rio, eles próprios tomarão a iniciativa de defender os seus lucros e passarão a fazer o devido tratamento às suas águas residuais.

Ficar à margem tem sido o que as autoridades têm feito. Não se sabe bem onde têm ido desaguar as queixas sucessivas de moradores e associações ambientais. Talvez seja mais fácil passar uma multa por falta de pagamento do estacionamento. Talvez seja mais fácil não incomodar os senhores empresários de sucesso. Talvez seja mais fácil dizer que não é fácil descobrir quem polui. Talvez seja mais fácil nadar a favor da corrente. Nestes casos, ficar à margem é estar ao lado dos marginais.

Piorando a situação, este governo está a retirar aos municípios a gestão do saneamento básico. Se com uma gestão pública de proximidade foi o que foi, podemos imaginar quando conseguirem finalmente privatizar este setor essencial. A preocupação com certas margens irá aumentar certamente... Imaginam que os preços para os municípios e cidadãos vão baixar? Imaginam que o número de trabalhadores ligados a esta área vai aumentar? Imaginam que o serviço prestado vai ser melhor? O caminho deveria ser o do reforço do papel dos municípios e das populações na definição das prioridades de investimento. Por outro lado, a fiscalização das descargas poluentes tem de ser efetiva  e trazer consequências. Para isso, era necessária uma verdadeira preocupação ambiental e de melhoria das condições de vida das populações.

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 Fotografia de Jesus Martinho

publicado por blogmontelongo às 18:00

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