BLOG MONTELONGO
Olhares para Fafe
08
Jul 17

Opinião de Carlos Afonso publicada no jornal Expresso de Fafe:

 

Moro na Urbanização capitão Salgueiro Maia, perto da Fábrica do Ferro, há dezanove anos, e sempre me habituei a viver com as angústias do rio que por aqui passa. O nome deste pequeno rio é Ferro, circunstância herdada de um destino aparentemente triste, e que nunca mo foi explicado, pois a simplicidade e fragilidade deste rio não denotam nome tão duro e frio. O que sei é que foi o rio que deu o nome à fábrica que, para aqui se arruma, também ela moribunda e amorfa, à espera dum futuro sem sombras.
Desde o tempo em que vim para aqui morar, olhei sempre o rio com tristeza e mágoa. Nunca fui capaz de entender a irracionalidade douta do homem. Primeiro era a poluição que o tingia de cores mortas e assassinas. Vivência angustiante que o conduziu ao abandono e à angústia. Mais tarde, com a despoluição do rio, e com as águas a voltarem a correr claras e com os peixes a surgirem à tona, uma outra postura muita negativa surgia. O problema estava agora nas margens, concretamente naquelas que se encostam ao lugar onde moro. Elas estão sujas e deserdadas. E é neste presente entregue às ervas bravas, às silvas e à bicharada, que obrigam o rio, e a mim, a questionarem a indiferença que mora no peito dos homens. A única companhia que o rio vai tendo, se isto é uma companhia, é um enorme contentor vermelho, sem vida, que por ali mata os dias, estendido a um sol desaproveitado.
Mas nem sempre foi assim.
Quando vim morar para as margens do rio, vivia numa destas casas de pedra o Sr. Joaquim, um homem bom e carregado de memórias, que o tempo já levou consigo. Contava-me este senhor de muitos anos que o rio Ferro já vivera dias de encanto e de amor. Era nestas águas cristalinas e frescas que as gentes de Fafe, no verão, vinham refrescar as vidas e o corpo. O rio era rico em peixe, e a pesca era farta e boa. E era também nestas margens, à sombra dos amieiros e cerejeiras, sob o trinar dos rouxinóis, que lindas histórias de amor se fizeram e se reproduziram.
Como era calmo e feliz o passado do rio Ferro!
Voltando ao presente onde me encontro, e agora numa asserção mais clara, chamo a atenção para o abandono a que está entregue este pedaço de rio, feito de tantas memórias e de águas outra vez claras. Eu sei que aqui ao lado existe um parque de lazer, que costumo frequentar e de que gosto, mas que passa um pouco à margem dos fafenses, talvez por causa de se encontrar demasiado encaixado e só. Se existisse todo um corredor verde ao longo do rio, ao longo das margens que envolvem a cidade, tudo seria mais fácil. Basta ver a beleza que este mesmo rio nos permite encontrar lá par os lados de Pardelhas ou Medelo, sítios já eles recuperados e que urge espalhar e acrescentar.

Rio Ferro Fafe

 

Também sei que já há um plano para despoluir o rio Vizela, e que, indiretamente, abrange o Ferro. Espero que seja verdade e sem mais percas de tempo. Eu não sei se o rio, farto de tanta inconveniência e mau aproveitamento, não se fartará e acabará por se deixar morrer outra vez.
Neste período eleitoral que nesta altura já se vive em Fafe, uma altura excelente para se pensar no bem da nossa terra, peço aos candidatos, todos eles gentes de bem e que amam Fafe, que olhem com olhos de ver para o rio Ferro e lhe voltem a dar a pompa e circunstância que ele merece. O rio Ferro, como seu «Corredor Verde», interligado com uma praia fluvial e outros acrescentos necessários, deve ser uma bandeira bem visível e um caminho a seguir. Teria muito gosto, um dia, poder dizer bem alto que, graças a uma intervenção pensada e sentida dos autarcas de Fafe, o rio Ferro transformou-se no rio mais belo de todo o Portugal, porque ele é o rio que passa na nossa terra e os fafenses devem amá-lo, respeitá-lo e viver com ele no coração.
Como seria maravilhoso, e apesar de os anos terem corrido, o rio Ferro recuperar o seu esplendoroso passado, voltando a ser quase tal e qual como era no tempo do meu saudoso Sr. Joaquim: um rio de águas frescas e repousantes, de peixes prateados, envolto por margens cuidadas, e na companhia de muitos fafenses, amor e natureza.
Na verdade, não precisamos de inventar espaços, temos é de preservar e alindar o que já nos rodeia. Só assim cumprimos o destino que nos foi traçado.
O rio Ferro, além de sonho e de memória, deve ser uma realidade… Uma realidade que afaste os contentores e traga as pessoas… Uma realidade que ofusque as silvas e faça renascer as flores dos prados…


publicado por blogmontelongo às 18:00
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