BLOG MONTELONGO
Olhares para Fafe
18
Jan 17

Texto de João Ricardo Lopes publicado na sua página:

 

No extremo noroeste de Fafe, numa das encostas do Maroiço, a pouco mais de um quarto de hora do centro da cidade, situa-se Aboim, umas das típicas aldeias do Concelho: pequena, colorida de tojo e rebanhos, atravessada de silêncio e por rotas de pedestrianismo, de vez em quando, também, por aficionados de moto 4, num despropósito de poeira e ruído…

Dispenso-me de grandes apresentações. Já noutras alturas me demorei sobre os encantos deste lugar imperdível. Não vem no mapa, não se fala das suas gentes, não se lhe conhecem artefactos históricos. Aboim é, apesar disso, um dos santuários de paz de onde dificilmente saio a pensar nos problemas do costume. Aqui apetece somente o fervilhar do verde, apetece a respiração pura, a fotografia.

Avista-se com facilidade o Rio Cávado, serpenteando lá ao fundo, em terras de Vieira do Minho. E avista-se também os picos de Lanhoso: entre eles, o do seu castelo afamado. Mais longe, o Sameiro, em Braga. E entre cada elemento um recamado de maciços graníticos negrejando, como num cenário de Caspar David Friedrich. Delicioso!

Não há luxos na paisagem. Tudo o que é belo, é-o simplesmente. Até este moinho erguendo-se numa colina sobranceira ao povoado. Diz-se recuperado da ruína. Não tem o pano que faria as pás semelhar mais autênticas (por causa dos roubos), mas é digno de ser visto e possui o seu inegável ar bucólico. Muitos, que assim pensam, vêm aqui em romagem para o retrato da praxe.

moinho aboim fafe

 Em baixo, no único café que pude encontrar, entre bandeirinhas do Benfica e garrafas de digestivos, aparece-me um simpático senhor de bigode farto a querer vender-me um cabrito. Do melhor que há por aquelas bandas explicou. Um olhar em volta capta toda a melancolia do espaço. Mesas e mais mesas vazias. Todas. Não me lembro da última vez que encontrei num espaço tão só. Um cabrito não vinha a calhar, mas gente sim. Gente, gente-gente, gente com quem conversar (curiosa essa súbita falta do frenesim habitual dos cafés).

Ao longo das estradas, elas também despidas de almas e automóveis, eis que me deparo com um desses ajuntamentos de gado à moda antiga, aparentemente sem dono, rebanhos mistos, com cabras e ovelhas correndo os mesmos caminhos estreitos, com os cães de guarda fitando-nos numa bonomia desconfiada. A pastora, ei-la ao longe, de atalaia, numa penedia. Grito-lhe. Aceno-lhe. Fotografo-a assim mesmo, aqui mesmo, do meu pequeno ponto no horizonte. Fotografo o seu rebanho, fotografo o silêncio, fotografo a solidão. Há em todas as coisas um gesto rude e simultaneamente cortês, as cabrinhas parecem posar, não admiraria que o fizessem. Os animais de pastoreio são avantajados e saudáveis, crescem ao deus-dará, não prestam contas a nenhuma mão fiscalizadora do Estado.

cabras aboim fafe

 Desço agora a Moreira de Rei. A estrada é ainda de alcatrão, cruza-se com nomes como Gontim, Lagoa, Várzea Cova, Pedraído. Uma brisa fresquíssima de carvalhal, de tojo, de ervas, corta-nos de tão fria. As cores do horizonte multiplicam-se, suavizam-se, perdem-se numa miscelânea de azul e tons de fogo. Foi neste recanto onde me encontro, em plena Serra, que escrevi há anos grande parte dos poemas de contra o esquecimento das mãos. No carro, com os cigarros e o caderno, somente o Sete Rosas Mais Tarde de Paul Celan, magnificamente traduzido por Yvette Centeno e João Barrento. Foi aqui que me curei da vida, que me limpei dos desastres, que me quis de novo como sou ‒ lugar-talismã, sagrado, podia dizê-lo…

Dá-me ganas de avançar. O carro conduz-me agora por um percurso de terra batida. Os aficionados do Rally de Portugal conhecem-no melhor do que eu. As torres eólicas (este é um dos maiores parques do país) produzem um silvo característico. Há dias que as suas pás enormes, ceifando o verde, girando sem parar, me aborrecem. Outros há que lembram um filme rodado em movimento, homenageando a era do progresso, acrescentando à paisagem um cosmopolitismo contrastante com a timidez e acanhamento das aldeias à volta.

Quem por cá anda, em busca de tartaranhões e grifos como eu, ou apenas pelo prazer de escutar os zumbidos espontâneos do vento, depara-se não raro com uma manada de garranos. Ocupando as colinas, descendo aos vales, esgueirando-se por entre bosques e silvados, são uma visão maravilhosa. Os potros aos pinotes, os machos e fêmeas adultos espiando cada movimento do tripé, eu a evocar antigos habitantes destas paragens, nómadas, celtas, mouros tresmalhados, poetas como eu.

De rocha em rocha, de laje em laje, trepo até ao alto de uma brenha. Avisto ao redor todo um firmamento de indizível liberdade. Para mim a liberdade é isto! O meu silêncio é aqui. Quando às vezes me canso de ensinar e das palavras que repito até deixar de as conhecer, preciso de vir.

maroiço fafe paisagem

Por estas bandas há também as lendas, as deliciosas fantasias que nem o desgaste dos tempos apagou. Há as tradições, as boas tradições que a distância de muitos filhos e netos, lá pelas Franças e Suíças, tornaram mais sagradas. Assim é a narrativa muito certa da Senhora das Neves, a que «bota fora» todo o Diabo que hajamos no corpo e na alma, recontada ainda há pouco pela Dona Miquelina. Assim é a história desta estranha casa, engastada na paisagem, encastoada entre dois blocos cilíndricos, e a que chamam «Casa dos Flintstones», «Casa do Penedo», «Casa do Rico», etc. A lenda diz que aqui veio um leproso curar-se da morte, aqui no meio do nada, aqui onde nem a maior peste pôde terminar o seu trabalho. O homem salvou-se e jurou não deixar desaparecer o seu refúgio. Ele aí está (o som do obturador reprodu-lo vezes sem conta), repleto de encanto, repleto de fascínio, repleto de turistas ocasionais que o calcorreiam, lhe mijam, o enxovalham. Triste!

casa penedo fafe flintstones house

Com a proximidade da noite regresso à estrada principal, ziguezagueando até Sant’ana ou a Marinhão. Nunca me sinto tão preenchido como nestes poucos minutos de penumbra que separam as duas metades do dia. Mora nestes lugares semiermos, neste interstício, um mistério que me não deixa partir completamente. Com alguma sorte, ao voltarmos ao ponto de partida, encontramos um conhecido, engavelamos conversa, somos convidados a entrar nalguma casita tosca, nalgum tugúrio, para provarmos do vinho (tintíssimo) e comermos broa com salpicão. Aqui, os forasteiros de boa vontade nunca o são verdadeiramente.

A noite anula todos os contrastes, apaga a orografia e os pensamentos. O ar é frio. Em volta há unicamente a conjuração das pedras com o céu, um rio de estrelas a transbordar (que a iluminação elétrica, feliz ou infelizmente, não chegou ainda a toda a parte), silêncio, um mais fundo silêncio de chocalhos calados, portas fechadas, gente guardada nas suas vidas. Quando me canso de ensinar e de repetir as palavras preciso de vir. Venho muitas vezes. Aqui o tempo é outro, nem depressa nem devagar, apenas cheio de sentido. Não me perguntem porquê.

fafe sol maroiço

 

publicado por blogmontelongo às 18:00
14
Jan 17

Opinião de Gil Soares publicada na revista Factos de Fafe:

 

          Um povo sem história é um povo sem memória. Fafe teve em Miguel Monteiro um defensor do património arquitetónico fafense como raíz histórica de um legado deixado, em grande parte, por fafenses emigrantes no Brasil que retornaram á sua terra e a valorizaram com edificações que são o suporte patrimonial da malha urbana. Não conheci Miguel Monteiro mas reconheço no seu trabalho a importância que Fafe ainda não foi capaz de o reconhecer publicamente. Digo isto perante uma terra que se designa de "justa" e ainda não teve a destreza de reconhecer o "mestre" numa das suas artérias ou praças. Miguel Monteiro deu montra a uma série de edificações de valor patrimonial e a sua relação com o fenómeno da emigração dos "brasileiros de torna viagem" que, financeiramente abastados, investiram na sua cidade com uma arquitetura tipicamente europeia recheada de revivalismos associados a uma apreensão estética, de terras de Vera Cruz, a nível da cor e dos revestimentos das fachadas. Na sua maioria, não sendo caracterizadas com um estilo arquitetónico, representam a arquitetura de uma época sob a influência, em grande parte, de elementos decorativos do estilo neoclássico que proliferou nos meados do séc. XVIII até ao séc. XIX.

Miguel Monteiro Fafe Património

           A designada "arquitetura brasileira" é uma referência às obras desses emigrantes e Miguel Monteiro frisou bem esse aspeto. Estas edificações, com a exceção do palacete anexo ao Centro de Emprego de Manuel Rodrigues Alves (que é um belo exemplar de Arte Nova) não são conotadas com um estilo arquitetónico, mas não deixam de ter valor patrimonial! A Miguel Monteiro também se deve a luta para não demolirem o Cine-Teatro e o transformar num Centro Comercial. Se já perdemos tanto património arquitetónico imaginem hoje Fafe sem o ex-libris, brilhantemente recuperado no mandato de José Ribeiro e que o Mestre ainda teve oportunidade de o ver.

          Que Fafe nunca esqueça Miguel Monteiro e lhe faça o devido tributo com um memorial ao nível da sua importância.

publicado por blogmontelongo às 18:00
11
Jan 17

Opinião de Alexandre Leite publicada na revista Factos de Fafe:

          O ano de 2017 trará um novo período eleitoral nos municípios e freguesias portuguesas. Há quatro décadas, em dezembro de 1976, realizaram-se as primeiras eleições democráticas nas autarquias locais, depois de quase cinco décadas de  ditadura fascista. Do processo revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974 surgiu uma nova Constituição que consagrou amplas conquistas democráticas, sociais e civilizacionais. Uma dessas conquistas foi a implementação de um poder local democrático, com a possibilidade dos cidadãos poderem participar na resolução dos problemas locais, tendo uma real possibilidade de elegerem e de serem eleitos nos órgãos autárquicos. Verdadeiras escolas de democracia, as assembleias e juntas de freguesia, as assembleias e câmaras municipais foram, ao longo dos anos, palco de debates, participações, intervenções, resoluções que permitiram uma grande proximidade entre os cidadãos e os centros de decisão. A democracia é muito mais do que apenas votar de 4 em 4 anos. Ela acontece também, e talvez até com mais importância, nessa participação, na compreensão e resolução dos problemas das populações locais. Quanto maior possibilidade de intervenção política e quanto mais próximo das populações isso aconteça, mais democrática é a nossa sociedade.

 

          Recordo que na reunião de abril deste ano da Assembleia Municipal de Fafe, a CDU apresentou uma proposta de recomendação ao parlamento de reposição das freguesias. Nessa moção era sublinhado que a reforma administrativa imposta pelo governo anterior, sem consideração da opinião das freguesias e das populações, em nada resolveu – antes agravou – os principais problemas com que se confrontam as freguesias. A redução de 11 freguesias em Fafe significou um maior afastamento entre eleitos e eleitores, maiores dificuldades na resposta aos problemas das populações, desvirtuamento do papel e função das freguesias na organização do poder local. Com diferentes argumentos, a maioria dos eleitos locais do PS e do PSD rejeitaram essa proposta. Ainda assim, apesar de existir apenas 1 eleito da CDU, houve 6 votos favoráveis, incluindo os de alguns presidentes de junta, para além de várias abstenções. Continua a necessidade de aprofundamento do debate e de um maior empenho por parte de quem realmente defenda os interesses locais.

 

          Mais democracia incomoda sempre quem pretende praticar políticas contrárias aos interesses populares. Os sucessivos governos quem implementaram políticas de direita apoiados por PS, PSD e CDS têm vindo a reduzir a autonomia e o financiamento das autarquias, esvaziando o seu poder. O que era preciso era fomentar a participação dos cidadãos e fortalecer a democracia dos órgãos autárquicos, a sua autonomia e o seu financiamento e isso só se consegue rompendo com a política de direita.

Alexandre Leite Fafe freguesias

 

publicado por blogmontelongo às 18:00
07
Jan 17

Opinião de Hernâni Von Doellinger no seu blog Tarrenego:

fafe inauguração banda revelhe exmo

 Foto: Município de Fafe

 

     A Banda de Revelhe, de Fafe, tem uma nova sede e casa de ensaios, o que por acaso até me calha muito bem porque é na minha Escola Conde de Ferreira, onde aprendi a instrução primária. De acordo com a placa oficial, que se reproduz, o inaugurador foi o "Exmº. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Fafe, Senhor Dr. Raul Cunha", e o benzedor foi o "Exm.º Pároco da Freguesia de Revelhe, Senhor José Miguel Cardoso". Evidentemente: o senhor doutor professor engenheiro arquitecto excelentíssimo senhor presidente da câmara municipal de fafe e o outro, o senhor cardoso, sapateiro, um excelentíssimo pároco que, conforme fica registado, nem sequer é padre...

publicado por blogmontelongo às 18:00
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